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Mulheres superam violência com ajuda de abrigo e nova profissão em SP

SP Por Todas completa 2 anos com apoio decisivo às vítimas

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Elas foram agredidas por homens que se diziam companheiros, conseguiram dizer não para o ciclo de violência e encontraram uma rede de apoio que as permitiram recomeçar. Além da violência doméstica, as histórias de J. e L. têm em comum a proteção encontrada em abrigos na região de Ribeirão Preto, e novas oportunidades profissionais após um curso de corte e costura nas carretas do Caminho da Capacitação

O recomeço para J. e L. é parte do trabalho da rede de proteção do SP Por Todas, movimento do Governo de São Paulo que completa dois anos neste mês dando visibilidade para ações integradas que garantam segurança, bem-estar e independência financeira para as mulheres de São Paulo.

Os abrigos são locais de endereço sigiloso destinados a proteger mulheres e seus filhos menores de 18 anos que sofrem ameaças ou risco de morte em razão da violência doméstica. Mantidos em parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS) e os municípios, os espaços permitem que as vítimas fiquem longe dos agressores, com suporte também de alimentação, acompanhamento psicossocial e de saúde, além de orientações fundamentais sobre trabalho e geração de renda.

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Entre 2023 e 2025, o número de abrigos em São Paulo cresceu quase 60%, totalizando atualmente 46 unidades com capacidade para atender até 1.300 pessoas.

Elas romperam o ciclo de violência 

Após o apoio encontrado na casa abrigo, J. 35 anos, diz, enfim, se sentir acolhida. “Agora eu sou outra pessoa, com vontade de viver.” Durante seu segundo casamento, ela vivenciou um relacionamento marcado pelo controle extremo, violência psicológica e humilhação diária. O parceiro a impedia de trabalhar, de tomar medicamentos para depressão e até de conversar com a equipe de assistência social. “Eu era isolada de tudo.” 

J. conta que a situação chegou ao limite após a primeira agressão física. “Cheguei em casa e ele estava muito bravo porque eu não atendia o celular. Expliquei que não podia fazer isso no trabalho, e ele ficou furioso e me pegou pelo pescoço.” Ela conta que sentiu que estava numa situação limite: “Entendi que eu precisava dar um basta”, relembra.

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Ela decidiu então procurar ajuda da assistência social de sua cidade, onde foi informada sobre a possibilidade de ir para a casa sigilosa. J. foi diagnosticada também com um quadro de depressão profundo. Durante a relação abusiva, ela afirma ter passado por diversas tentativas de suicídio. “Eu não via mais sentido na vida. Assim que cheguei ao abrigo, recebi tratamento para minha saúde psicológica também.” Ela foi abrigada junto à filha de 17 anos, que também possui problemas psicológicos. 

Neste mês, J. passou também pelo curso de Corte e Costura no Caminho da Capacitação, programa do Fundo Social de São Paulo. “Esse curso vai mudar minha vida, eu vou seguir para frente. Agora eu sou uma nova mulher, penso só em ir pra frente”, relata, orgulhosa de sua nova chance.

J. em curso de Corte e Costura pelo Caminho da Capacitação. Foto: Governo de São Paulo/Divulgação

O abrigo marca também uma nova fase da vida de L, 48 anos. Vítima de um relacionamento abusivo que durou oito anos, ela sofreu agressões severas e foi introduzida ao vício em drogas e álcool pelo ex-companheiro. Ela conta que o controle era tão doentio que não podia sair de casa sozinha, nem para visitar a própria mãe.

L. afirma ter chegado ao limite após um episódio de violência brutal, em que o agressor chutou sua cabeça e quebrou seus dentes. “Achei que eu ia morrer”, confessa. Ela conseguiu fugir e passou dois dias morando na rua até pedir ajuda a um padre, que a encaminhou ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

Em seguida, ela foi levada para o abrigo onde, imediatamente, passou por cuidados de saúde que incluíram tratamento contra o vício em álcool e drogas. Longe do agressor, ela conseguiu se livrar da dependência química, recuperou seu peso e sua dignidade. Costureira de lençóis em sua cidade natal, L. conta ter ganhado novas habilidades com o curso de Corte e Costura do Caminho da Capacitação.

“Aprendi a moldar, cortar… Acabei uma blusinha agora que eu fiz sozinha. Esse curso mudou muito a minha vida.” Agora, com uma medida protetiva em mãos e a promessa de um novo emprego, ela sonha em reconstruir os laços com sua mãe e seus três filhos já adultos.

L. aconselha mulheres que passaram pela mesma situação de relacionamentos abusivos a enfrentarem a situação. “Recomecem de novo que dá tempo. Tudo tem um começo novo”.

Carretas do Caminho da Capacitação percorrem o estado com cursos profissionalizantes gratuitos. Foto: Governo de São Paulo/Divulgação

Como buscar ajuda?

Se você ou alguém que você conhece é vítima de violência doméstica, procure ajuda. Em situações de emergência, ligue 190 para acionar a Polícia Militar. Também estão disponíveis o Disque 180, canal nacional de orientação e encaminhamento para a rede de proteção, e o Disque Denúncia 181, para comunicação anônima de crimes.

O Estado oferece ainda o aplicativo SP Mulher Segura, onde é possível registrar boletim de ocorrência. A ferramenta está disponível na loja virtual do Google Play e App Store. As denúncias podem ser feitas pela Delegacia Eletrônica da Polícia Civil, que funciona 24 horas, ou em qualquer delegacia da Polícia Civil presencialmente.

Além disso, o estado tem hoje 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), cujos endereços e telefones estão disponíveis aqui. Também estão distribuídas por 170 municípios as Salas DDM 24h (veja a lista de unidades aqui). Veja como identificar violência doméstica aqui.

SP Por Todas

O SP Por Todas é um movimento promovido pelo Governo do Estado de São Paulo para ampliar a visibilidade das políticas públicas para mulheres, bem como a rede de proteção, acolhimento e autonomia profissional e financeira para elas. Essas frentes estão nos pilares da gestão e incluem soluções como o lançamento do aplicativo SPMulher Segura, que conecta a polícia de forma direta e ágil caso o agressor se aproxime; e a criação de novas salas da Delegacia da Defesa da Mulher 24 horas. Mais informações www.spportodas.sp.gov.br.

*texto por Vanessa Selicani