Elas são vozes ativas no enfrentamento à violência contra as mulheres de São Paulo, recebendo ligações todos os dias na Cabine Lilás de vítimas de agressões domésticas. O serviço especializado, criado pelo Governo de São Paulo em 2024, funciona no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), local que recebe as ligações de emergência de todo o estado. As atendentes treinadas dão suporte para que elas formalizem a denúncia e procurem a rede de apoio.
A Cabine Lilás faz parte da rede de proteção do SP Por Todas, movimento do Governo de São Paulo que completa dois anos neste mês dando visibilidade para ações integradas que garantem segurança, bem-estar e independência financeira para as mulheres de São Paulo.
A cabo da Polícia Militar Raiane Cavalcante fala com orgulho do trabalho realizado na Cabine. “O ideal é que a gente conseguisse fazer todas essas mulheres que entram em contato com a gente protagonistas da sua própria história. Tentamos ao máximo permitir que elas consigam sair dessa situação de violência por meio da nossa orientação e dos cuidados de toda a rede de apoio que o Estado oferece.”

Cabo Raiane escuta dezenas de mulheres todos os dias com a empatia de quem já conviveu com a violência doméstica. Ela lembra, emocionada, das agressões vividas pela mãe dela, quando Raiane tinha apenas 8 anos.
“Minha mãe foi vítima de violência pelo companheiro dela, meu pai. Ela foi muito valente e teve garra para colocar um fim nessa situação, mesmo que fosse para criar os quatro filhos sozinha. Ela soube nos fazer seres humanos dignos e decentes. E estou aqui hoje para contar essa história.”
A policial afirma que a trajetória pessoal acabou a levando naturalmente a tratar com mais paciência e sensibilidade casos de violência doméstica. “Minha história me fez ter força para conseguir ouvir essas mulheres, me colocando no lugar delas também, para oferecer essa escuta, para oferecer essa ajuda.”
A história da cabo Kátia Cilene também é marcada por muitos episódios de dor e outros muitos de superação. Ela passou oito anos em um relacionamento marcado por violência física, moral e psicológica com o pai de seus dois filhos. A policial conta que sempre foi controlada pelo marido, sem acesso a dinheiro e trancada em casa.
Mas a violência passou a se intensificar quando ela decidiu ter uma profissão e foi aprovada no processo seletivo para ser policial. “Ele me forçou a comer o papel com a aprovação e ameaçou me jogar do carro quando ficou sabendo. Em seguida, começou a limitar ainda mais o acesso à comida e dinheiro em casa”, conta, emocionada.
Mas as intimidações e violências não fizeram a cabo Kátia desistir de seguir sua profissão, o que garantiu mais tarde sustento para que ela pudesse, enfim, deixar o ciclo de violência.
O empoderamento trazido pelo conhecimento dos seus direitos e da sua força como policial militar fez com que ela finalmente desse um basta definitivo nas ameaças. “Eu falei: ‘Você não põe a mão mais em mim’.”
Cabo Kátia não apenas reconstruiu sua vida, como transformou seu trauma em ferramenta de trabalho. Ao integrar a equipe precursora da Cabine Lilás, ela percebeu que as histórias que ouvia no telefone eram semelhantes ao seu próprio passado.
Ela afirma que compartilhar sua jornada com as vítimas ajudava a criar conexão e mostrar que a violência não é o destino final. “Muitas me disseram que parecia que eu estava tirando uma venda dos olhos delas.”

Para a policial, a superação é dolorosa, mas libertadora, lição que faz questão de deixar claro a outras mulheres. “Você tem que dar o primeiro passo e já estará vencendo o primeiro ciclo. E os demais ciclos você vai vencer com paciência, com orientação, com pessoas que possam te ajudar. Hoje, tanto a Polícia Militar como o Governo de São Paulo têm meios para que a gente possa sair dessa situação muito mais rápido do que na minha época.”
A Cabo Raiane aconselha as mulheres a não se sentirem culpadas. “Encontre forças para denunciar o agressor e peça ajuda. Para as mulheres que ainda não estão convencidas de que estão em um relacionamento violento, saibam que, se há dúvidas, é porque não há dúvidas.”
Como buscar ajuda?
Se você ou alguém que você conhece é vítima de violência doméstica, procure ajuda. Em situações de emergência, ligue 190 para acionar a Polícia Militar. Também estão disponíveis o Disque 180, canal nacional de orientação e encaminhamento para a rede de proteção, e o Disque Denúncia 181, para comunicação anônima de crimes.
O Estado oferece ainda o aplicativo SP Mulher Segura, onde é possível registrar boletim de ocorrência. A ferramenta está disponível na loja virtual do Google Play e App Store. As denúncias podem ser feitas pela Delegacia Eletrônica da Polícia Civil, que funciona 24 horas, ou em qualquer delegacia da Polícia Civil presencialmente.
Além disso, o estado tem hoje 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), cujos endereços e telefones estão disponíveis aqui. Também estão distribuídas por 170 municípios as Salas DDM 24h (veja a lista de unidades aqui). Veja como identificar violência doméstica aqui.
SP Por Todas
O SP Por Todas é um movimento promovido pelo Governo do Estado de São Paulo para ampliar a visibilidade das políticas públicas para mulheres, bem como a rede de proteção, acolhimento e autonomia profissional e financeira para elas. Essas frentes estão nos pilares da gestão e incluem soluções como o lançamento do aplicativo SPMulher Segura, que conecta a polícia de forma direta e ágil caso o agressor se aproxime; e a criação de novas salas da Delegacia da Defesa da Mulher 24 horas. Mais informações www.spportodas.sp.gov.br
