São Paulo mobilizou em 2024 operações históricas para combater incêndios que se alastraram por todo o estado. Com o baixo volume de chuvas e as altas temperaturas entre agosto e outubro, cerca de 15 mil bombeiros, pilotos, agentes da defesa civil, médicos, veterinários e diversos outros profissionais foram direcionados para a linha de frente da batalha contra o fogo. Os trabalhos chegaram a contar com uma operação inédita de 20 aeronaves mobilizadas simultaneamente.
Vladimir Arrais, coordenador de prevenção e combate a incêndios da Fundação Florestal do estado, conta nunca ter vivenciado uma situação como essa em 40 anos de profissão.
“Vivemos o primeiro ano de uma mudança climática clara. Nunca vi algo tão potencializado. Mas temos que estar preparados”, Vladimir Arrais, coordenador de prevenção e combate a incêndios da Fundação Florestal
Ele foi mobilizado pela Operação SP Sem Fogo, do Governo de São Paulo, para o combate às queimadas. A força-tarefa envolveu as secretarias de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), Segurança Pública (SSP) e Agricultura e Abastecimento (SAA), além da Defesa Civil do Estado.

Ao todo, 81 unidades de conservação ficaram sob risco de incêndio. Elas foram monitoradas com ajuda de satélites e drones para identificar os focos. Além disso, a Fundação Florestal realizou 1,6 mil km de aceiros, áreas de no mínimo 6 metros de largura abertas nos limites das unidades para evitar a propagação do fogo. “Dependendo da forma que o fogo entra, ele para no aceiro, porque não encontra vegetação”, explica Vladimir.
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O coordenador relata que, na maioria das ocorrências, as chamas se iniciam fora das unidades de conservação, em áreas próximas a rodovias, por exemplo. Por isso a importância dos aceiros. Além de proteger a fauna e flora, as unidades ajudam na regulação da temperatura e da qualidade do ar, além de servir como espaços de lazer para a população.
Combate aéreo e terrestre

No dia 14 de setembro, quando os focos de incêndio atingiram as regiões centro-oeste, norte e Vale do Paraíba, a SP Sem Fogo desencadeou a maior operação aérea da história do estado, com o uso de 20 aeronaves atuando ao mesmo tempo.
“O ambiente em um voo de combate a incêndio é sempre hostil. Tenho uma condição de alta temperatura, muita fumaça no ar e a aeronave no seu limite operacional. Mas esse é o nosso ofício e obrigação”, afirma o chefe da Divisão de Operação do Comando de Aviação da Polícia Militar, major Joscilênio Cesário Fernandes, que atuou como piloto em alguns combates neste ano.
A operação aérea coordenada pelo gabinete de crise da Operação SP Sem Fogo contou com aeronaves contratadas pela Defesa Civil, Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística e Fundação Florestal, além dos helicópteros Águia do Comando de Aviação da Polícia Militar. Durante o período de atuação do gabinete, as aeronaves totalizaram 1.598 horas de voo e lançaram mais de 7,38 milhões de litros de água sobre os focos de incêndio.
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Ao todo, o Governo de SP investiu R$ 18,8 milhões na contratação de aviões e helicópteros para o combate aos focos de incêndio.
O voo de combate a incêndio é considerado difícil: a fumaça atrapalha a visibilidade dos pilotos e a proximidade de árvores e morros dificulta a operação

“Todo incêndio é muito rápido, então é preciso fazer o planejamento e traçar os pontos de apoio. Também tem que mapear onde vai ser feito o abastecimento da água com a aeronave, onde ela vai pousar. Sempre analisando a questão do ambiente, que é sempre bem hostil”, major Joscilênio Cesário Fernandes Fernandes.
O piloto relembra o combate a um incêndio de grandes proporções em uma área de mata em Ribeirão Preto, uma das cidades mais atingidas pelas queimadas.
“Foi muito marcante por conta da proximidade da área urbana. O vento trouxe grande quantidade de fumaça e alguns focos de incêndio se aproximaram das residências. O importante é garantir a segurança das pessoas. Com as brigadas contratadas e a Defesa Civil, conseguimos fazer a contenção”, relata.
O Sargento da PM Lucas Vinícius Martins Rodrigues, do comando de prontidão do Corpo de Bombeiros, participou dos trabalhos de combate ao fogo por vias terrestres. Ele conta que a rotina dos bombeiros foi bastante impactada pelos incêndios. “Trabalhamos 24 horas para apagar o fogo. Mas além de incêndios em vegetação, temos muitas outras funções, como atuar em acidentes com pessoas presas nas ferragens, serviço de resgate, incêndio indústria, por exemplo.”
O sargento conta que a prioridade é salvar vidas. “Sempre visualizei os bombeiros como herois da sociedade. Tem bastante criança que vem aqui nos visitar, chegam até vestido de bombeiro. Para a gente é gratificante.”

A operação que salvou animais das chamas
A vida animal também foi impactada pelos incêndios em 2024. Como resposta, a rede de atendimentos estruturada pelo Governo do Estado realizou um esforço inédito para resgatar os animais silvestres.
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“Foi uma situação inusitada, eu nunca vi algo parecido. Foi um evento climático extremo e tivemos que fazer um plano emergencial com atendimento 24 horas por dia”, relata o zootecnista Alexandre Gouveia, responsável técnico pelo Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres (Cetras) de Morro de São Bento, localizado em Ribeirão Preto.

Os animais resgatados eram levados a um dos 26 centros coordenados pela Semil, onde eram catalogados segundo a espécie e passavam por exames laboratoriais. Na sequência, era feita a triagem para o trabalho de reabilitação e, posteriormente, a devolução ao habitat natural.
Os animais que chegam às unidades da rede recebem atendimento dentro de critérios técnicos definidos por um protocolo estabelecido pelo Estado. Desde o início das queimadas, 94 animais foram resgatados e levados a um dos centros de recuperação; 53 morreram, dois foram reabilitados e devolvidos à natureza e o restante continua em tratamento.
Isabella Saraiva, diretora do Departamento de Fauna Silvestre da Semil, conta que um desafio foi orientar a população a deixar o resgate sob responsabilidade dos profissionais.
“A pessoa pode se machucar ou machucar o bicho tentando ajudá-lo. Daí a importância de entrar em contato com a polícia ou bombeiro para que eles pudessem fazer o resgate adequado desse animal”, explica.

Luta pela história
No dia 23 de setembro, a coordenadora de Defesa Civil do município de São José do Barreiro, Suélen Carvalho, recebeu uma ligação informando que um incêndio havia iniciado na Estrada Municipal Fazenda São Francisco e pouco depois um outro foco na fazenda Pau D’Alho, considerado patrimônio histórico da região. O local foi visitado por Dom Pedro I no caminho a São Paulo dias antes da Proclamação da Independência e é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Em poucas horas, o incêndio tomou grandes proporções. “Chegando nesses locais, dependendo da proporção, a necessidade nos lança em combate. É impossível só ficar olhando. É bastante desgastante, exige força e treinamento, precisa ter a percepção da evolução e tomar cuidado porque é bastante perigoso”, afirma.
Com o apoio de brigadistas, agentes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e voluntários, o fogo foi controlado após cinco dias de intenso trabalho.
“Esse incêndio na Fazenda Pau D’Alho se espalhou para fazendas vizinhas, áreas de mata, de pecuária e áreas de preservação permanente. Foi uma ocorrência bastante complicada e complexa que, se não fosse o apoio de todos, não sei como seria”, Suélen Carvalho, coordenadora de Defesa Civil do município de São José do Barreiro.
“E o apoio da Defesa Civil Estadual foi muito importante. Durante três dias, o helicóptero Águia atuou na área de mata e foi essencial para ajudar a combater o incêndio”, reforça.
