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“Seja o algoritmo na vida do seu filho”, alerta delegada de núcleo da Polícia de SP que já salvou 365 vítimas

Governo de SP foi pioneiro na criação, em 2024, do Núcleo de Observação e Análise Digital, responsável por monitorar redes sociais para identificar e prender suspeitos e prevenir crimes
Podcast da Agência SP abordou atuação do Noad em São Paulo. Foto: Governo de São Paulo/Divulgação

- Atualizado em 02/04/2026 - 11:07:54

Especializado em monitorar as redes sociais e combater crimes envolvendo crianças, adolescentes e animais, o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo, já salvou 365 vítimas e mais de mil animais. A afirmação é da delegada e coordenadora do Núcleo, Lisandrea Colabuono, entrevistada pelo SP Pod, o podcast da Agência SP, cuja estreia ocorreu nesta quarta-feira (1). 

O Noad é uma iniciativa do Governo de São Paulo e tem atuação pioneira no monitoramento de redes sociais, além de rastrear e impedir crimes no ambiente digital. Com isso, mais do que apoiar na investigação, o Núcleo previne crimes como estupros virtuais e a comercialização de pornografia infantil. Em fevereiro deste ano, por exemplo, o trabalho do Noad permitiu à Polícia Civil impedir um possível ataque na Avenida Paulista, articulado no ambiente digital.

Leia mais: Investigação da Polícia Civil de SP em grupos online impede plano de ataque na Av. Paulista

A delegada conta que a criação do núcleo ocorreu em 2024 após os ataques em escolas pela necessidade de compreender como as redes sociais estavam sendo utilizadas para cometer crimes. “Não tínhamos dados, precisávamos saber o motivo, traçar um perfil criminal dos responsáveis pelos ataques”, disse. Hoje, o núcleo se concentra em evitar ataques.

“O foco do nosso trabalho são as vítimas, em sua maioria crianças. A gente não dorme para salvar vidas”, disse Lisandrea.

O trabalho do Núcleo, explica a delegada, é monitorar as ‘chans’, comunidades anônimas da deepweb que agregam pessoas com os mesmos interesses, e as chamadas “panelinhas” nas redes sociais, plataformas preferidas pelos responsáveis por esse tipo de crime.

“Muitos são adolescentes que buscam pertencimento e que de certa forma têm dificuldade de interação social. As vítimas, em sua maioria, são meninas, de 6 a 14 anos”, explicou a delegada.

No podcast, Lisandrea chama a atenção para a falta de motivação específica dos agressores e a banalização da violência

“Não há motivação financeira. Na verdade, por vezes ali é a violência pela violência, apenas para ficar conhecido entre seus pares nos grupos”, afirma.

Outro detalhe importante é o horário das agressões, geralmente de madrugada, horário em que os pais estão dormindo e as crianças usam a internet sem vigilância. 

“Já houve casos de ligarmos para os pais que estavam dormindo enquanto seu filho estava sendo submetido a mutilações”. disse. Por isso, segundo a delegada, o Noad faz um trabalho intenso de monitoramento entre 22h e 5h.

A delegada chamou a atenção para a necessidade de os pais interagirem e monitorarem os filhos nas redes com extrema atenção.

“Conheçam seus filhos mais do que qualquer algoritmo. Hoje, o algoritmo sabe exatamente o que o filho de cada um de nós quer nas redes. Ele identifica em 3 segundos e começa a passar”, alerta a delegada, que ainda acrescenta: “Seja o algoritmo na vida do seu filho. Não deixe que uma rede social o conheça melhor que você”.

Monitoramento de plataformas digitais

A coordenadora do Noad disse que um dos maiores problemas enfrentados pela polícia em crimes virtuais é a falta de colaboração de algumas plataformas. Em fevereiro, o Noad entregou ao Ministério Público um relatório que aponta falhas de moderação em plataformas digitais que permitem crimes contra crianças e adolescentes.

“A moderação das plataformas é absolutamente necessária. Tivemos um caso, por exemplo, de uma adolescente se mutilando e nós acionamos a plataforma para que derrubasse o servidor e preservasse os dados para investigarmos. Eles [a plataforma] não consideraram o caso urgente nem violento”, disse.

Lisandrea afirma que é necessário vislumbrar um cenário em que a plataforma consiga monitorar que o crime está ocorrendo, “porque eles têm a tecnologia para isso”, e acione imediatamente a força de segurança. “Hoje sabemos, por exemplo, que as plataformas preferidas dos criminosos são aquelas que possuem pouca moderação”, enfatizou.

Noad

O Estado de São Paulo foi precursor na criação do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) e na identificação de falhas de moderação nas plataformas. Um exemplo recente de atuação decisiva do Noad, que hoje é uma referência nacional em combate a crimes virtuais, ocorreu em março deste ano, quando a Polícia de SP liderou a investigação que culminou na prisão de um suspeito de matar e maltratar mais de cem animais durante transmissões ao vivo em uma plataforma digital. A prisão foi cumprida em Fortaleza, no Ceará, com apoio da Polícia Civil local.