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Sargento torce por adoção de cavalo após trabalhar 14 anos com o animal

Equinos da Polícia Militar passam para a reserva após atingir certa idade na corporação e depois são doados
Sargento quer continuar a parceria que já dura 14 anos

- Atualizado em 06/02/2025 - 16:24:23

O sargento Eduardo Oliveira Santos mantém uma relação que vai além do trabalho com o cavalo Bizantino. Há 14 anos, os dois dividem a rotina no Regimento de Polícia Montada (RPMon) 9 de Julho. O animal acompanha a trajetória do profissional desde a época em que ele era soldado na corporação. Agora, após mais de uma década juntos, o equino está prestes a se aposentar.

Dentro da cavalaria da PM, um cavalo chega, em média, até os 20 anos com condições de prestar serviços à sociedade de forma saudável. Após essa idade, uma comissão composta por veterinários, policiais do setor de logística e pelo comandante-geral do regimento, atualmente o coronel Clodoaldo da Cruz, avalia se o animal tem condições de continuar o trabalho na corporação.

“O mais importante é aposentar o cavalo com a saúde boa, não há idade mínima para isso”, explicou o 1º tenente Lucas Carvalho da Costa, chefe da comunicação social do RPMon 9 de Julho. Os equinos podem entrar para a reserva — situação semelhante à aposentadoria — antes dos 20 anos por problemas de saúde como tendinite ou lombalgia, mau comportamento ou problemas no policiamento, como apresentar uma postura muito agressiva.

Todo dia de trabalho, o sargento chega pela manhã na baia e faz a “manutenção” do Bizantino — escova, limpa e dá banho

Bizantino completará 19 anos em novembro e integra o 1º Esquadrão Operacional do Regimento, responsável pelo patrulhamento nas ruas e controle de multidões, como em manifestações, jogos, shows e grandes eventos. Na época, o animal foi designado ao sargento Oliveira, que ficou responsável pelo cuidado após entrar no regimento. 

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Todo dia de trabalho, o sargento chega pela manhã na baia e faz a “manutenção” do Bizantino — escova, limpa e dá banho. Esse cuidado conta com o apoio de veterinários e de policiais que alimentam o equino. O apego criado nesse tempo foi tão grande que o cavalo já faz parte da família. “Quando tem encontros familiares, os parentes nem me perguntam como estou mais, já querem saber como o Bizantino está”, brincou Oliveira. 

O sargento contou que a “todo momento tem o cavalo em suas recordações” e que não o deixa de visitar nem mesmo durante as férias. “Quando é aniversário dele e eu estou em casa, sempre venho até o regimento comemorar com ele. Canto parabéns com alguns instrumentos como gaita, trompete e flauta. É simbólico para mim.”

A saudade foi ainda maior quando seu companheiro precisou ficar cinco anos na Academia de Polícia do Barro Branco, na zona norte, por conta de uma logística de policiamento. “Revê-lo foi um momento muito feliz. Encontrei ele em um destacamento do Parque Água Branca, em 2017. Só no ano seguinte ele conseguiu ficar no regimento de forma fixa”, contou.

Doação

O Sargento quer continuar a parceria que já dura 14 anos
O cavalo completará 19 anos em novembro

Apesar de muitos momentos juntos, o policial não sabe se no futuro continuará com o Bizantino. Após o cavalo se aposentar, ele é colocado em uma lista de doação. 

“Cavalos da PM não são vendidos ou leiloados, nós doamos. E a prioridade da doação sempre será de quem cuida do cavalo. Caso o policial não tenha condições de criá-lo, é oferecido para outros policiais da unidade. Se ninguém se interessar, aí abrimos ao público, que geralmente entra em contato”, explicou o tenente da RPMon 9 de Julho.

O interessado em adquirir o equino precisa cumprir alguns requisitos como ter local adequado e apresentar condições de cuidá-lo. O cuidador também não pode vender ou doar o cavalo para terceiros. Depois da aquisição, os policiais do regimento fazem visitas até o terreno do “comprador” para checar se não há nenhuma irregularidade com o cavalo. Caso tenha, apesar de não ser comum, o cavalo é devolvido ao regimento para uma nova doação.

“Meu sonho é levar o Bizantino comigo. Mas hoje não tenho condições. Moro em um apartamento e cuidar de um cavalo requer despesas, mas quem sabe”, disse Oliveira. O sargento mora em Caieiras, na Grande São Paulo.

Apesar dos vários destacamentos espalhados pelo estado, todo o processo de aposentadoria dos cavalos é realizado no Regimento 9 de Julho.

Interessados

Já existe uma família interessada em ficar com o Bizantino depois que ele for para a reserva. Em 2022, Clara Valentina, de 6 anos, visitou o regimento da PM. Os pais são de Caldas Novas, Goiás, e vieram até a capital paulista para tratar a doença da filha, que tem câncer na tireoide.

“Quando soube disso, falei comigo mesmo que ia dar tudo de mim nessa visita. Logo pensei no meu cavalo, e coloquei ela para dar uma volta nele. Depois disso, em todo lugar que ela ia falava que andou no Bizantino”, relembrou o sargento.

A menina realizou a cirurgia neste ano e foi um sucesso. “Os pais dela me contaram que a primeira coisa que ela perguntou quando acordou foi onde estava o Bizantino”, disse Oliveira. Os pais já estão em contato com o policial para avaliar a doação do equino, que iria para um terreno na cidade onde moram.

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